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Infusão Memorial


...E foi assim que ele conseguiu sair daquele pânico cerebral, ou crise mental, que vinha passando desde o dia que:

A noite silenciosa nas travessas e esquinas daquela grande cidade, onde o anormal impera, sendo que geralmente Elivolto sentia-se mais na presença maciça dos ruídos dos carros, de que como uma obrigação passavam, por aquela praça.
Mas tudo era silencio.
E a noite estava repleta de Lua cheia, e reflexões sobre um sub mundo que sobrevivia no inconsciente daquela criatura.
A praça se metamorfoseava, tomava forma, continha uma estrutura de vida que se alongava, alongava, até o inconsciente, agora consciente, presente e marcante de Eli.
E é ai nesse momento, Eli, praça, que ele sente-se em um reencontro, num clima de meditação e concentração.
Desinteressado, um homem atravessa a rua e vem em sua direção, seus passos diminuem a partir do momento em que se aproxima do banco da praça. Marca o compasso exato do tempo, um suspiro traz-lhe na memória a lembrança, de seu momento inicial de vida, em forma de matéria na Terra.
O homem se desfaz em sua visão, como se tivesse se desintegrado, na poluição que ele ajudara a criar.
Neste impulso, Eli transcende, numa viajem em si, um bichinho num mar de sangue, nadando de um mundo a outro, em um impulso fecundativo, começa a penetrar vagarosamente numa esfera, e morre.
Com todo instinto que lhe criara, num movimento universal de vida. Aquele momento ao seu redor tudo se altera metabolicamente e torna-se casulo.
Metade, metade, morreu o bichinho, e outro começa a nascer, muitos tentaram alcançar, ou nem tentaram, a natureza fez assim, vida e morte.
As nuvens passavam pela Lua, que transmite entre meio as arvores da praça, um ar de velocidade, de tempo, espaço. Mas não eram as horas que se passavam, mas sim a viajem ao veio materno de Eli.
Neste casulo, uma meditação profunda, a vida e morte, um estado de inércia. Mas a morte e a vida não existe, fundem-se uma a outra, neste instante em que há uma preparação para o novo mundo, uma experiência, pra uma nova vida de experiências.
Aos poucos, lentamente como tudo fora feito, seu desenvolvimento embrionário, evolui, tomando forma de corpo humano. Começa a aparecer os primeiros vestígios, braços, mãos, pés, dedos, o tronco com cordão umbilical ligado em algum lugar, daquele Universo, continha um fluxo intenso de energia, um mistério, o desconhecido.
Dentro deste Universo seu crescimento girava, e sua cabeça se transformava, a mesma cabeça que o levara a praça.
Quando tudo estava formado, a membrana que o revestia se rompe. A nova caminhada começa, um choro varava as expectativas, um sinal de vida, um som transitava incontinuamente pelos confins da praça.
Mas Eli estava num quarto, havia paredes em cima, em baixo, de todos os lados. Seu novo mundo, um mundo geométrico, de trancas e chaves, de coisas sem choro.
Eli, nada fazia, além de chorar, dormir e mamar, ele estava acostumado com o outro mundo, de onde as coisas surgiam por si, não era preciso ir em busca. A fome, a sede, frutos de seu corpo, eram sanados pela própria natureza, pelo próprio Universo em que vivia.
Desenvolve-se a cada Sol, a cada giro da Terra, seu corpo é dividido entre o de sua mãe, pois era ali que estava armazenado seu alimento, fonte do desenvolvimento de sua vida.
Introduzido a flor da Terra, todas as formas lhe são vistas com complexidade, e curiosidade, algo que já vinha, desde outras existências.
Seus olhos penetrantes se alongam através das imagens, percorrendo o incompreensível.
Mas tudo aquilo haveria de ter um fim próprio, uma razão de ser.

Já era tarde, levanta-se, olha para traz, e segue seu rumo.

(IOANES NULLIUS)